sexta-feira, 24 de junho de 2011

Um dia...

       Um dia, vou deixar de chorar, vou deixar de sentir este aperto no peito, o nó da garganta, este medo que me reprime fazendo com que eu não tome acções, esta vontade de dormir, e esquecer tudo, fugir de tudo.
       Um dia... um dia vou cantar, assobiar, sorrir com vontade, à gargalhada, contar anedotas, correr saltar, como quando era inocente, como quando era criança e brincava com os outros lá da escola.
Eu já sorri, mas nessa altura, na altura em que andava na primária, na preparatória, na secundária, mas depois... depois fui para a selva, com a mesma energia, contente porque ia vencer, porque tudo era tão fácil naquela altura, mas depois descobri, e agora não sorrio tanto. Na selva come-se mal, muita mão cheia de sal, muita amargura, muita azia, muita noite sem ser dormida, muita correria, não aquela correria que havia na escola, mas uma correria mais doida, mais agonizante, mais stressante, uma luta, um anseio, as vontades goradas, a desilusão, a mentira, o cinismo, a farsa, a falsidade, a inveja, as facadas nas costas, o faltar-nos o chão, é a mão vazia, a barriga a doer, e nada que se possa fazer. Há quem consiga, não pelo melhor caminho, e outros... os outros resignam-se, aceitam, sofrem calados, há os que se revoltam, há os que tomam atitudes desesperadas, há de tudo... mas, se formos a ver bem, todos buscam o mesmo que eu, ser feliz, há um género de pessoas que diz que é o amor, o outro género não o diz, procura-o sem saber, e ambos fazem os maiores disparates em nome desse amor, dessa felicidade, casam, descasam, voltam a casar, tem tudo e depois não têm nada, matam, esfolam, roubam, dizem, fazem, e depois... depois, ser feliz não é o amor, mas já não há amor, e quando chegam aquela idade, frustrados porque não conseguiram, chateiam-se e chateiam os outros, mas aqueles que conseguiram, esses, lese-lhes a felicidade nos olhos, na maneira de falar, na humildade, no respeito, nas virtudes, das pessoas que são, não deveram muito, não tiveram muito que pagar cá, outros pagam e gostam de pagar, não entendo, sofrem e gostam de sofrer. Há pessoas que passeiam a sua ignorância, fazem gosto em mostra-la, em mostrar as suas dificuldades, em afirmar que são... não sei, por isso, eu, demore o tempo que demorar, eu vou ser feliz, vou ter o que desejo, vou ser o que quero ser, vou fazer o que desejo fazer, mas para já... para já continuo na selva, lutando, até morrer, até não poder mais. Faço como os macacos, não falo, não oiço e não vejo, e pedra aqui pedra ali, faço uma escadita à minha maneira, a ver até onde consigo chegar. Mas com uma certeza... com a certeza que quando chegar ao fim, apesar de tudo, fui, sou, e serei feliz, à minha maneira, como eu quis, como eu pude, como eu hei-de um dia ser ainda mais feliz.